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Há algumas outras reflexões sobre a redução que só foram permitidas essa semana quando apareceram alguns números novos sobre o vestibular da UERJ.
Para os interessados em saber mais sobre o assunto sugiro a leitura do que já foi publicado neste blog na seção Acesso ao ensino superior - na coluna da direita
Mas vamos recapitular o tema e apresentar novas informações e considerações:
1 – A redução do número de Cotistas é derivada principalmente da “renda decapta” que só permitiu a inscrição de 2.400 cotistas esse ano (1531 candidatos da Escola Pública e 753 candidatos Negros, a diferença entre a soma desses números e o total de cotistas deve-se ao fado de que há outras instituições participando do Vestibular UERJ). Existiam na UERJ 1031 vagas para cada categoria que foram preenchidas por uns 800 aprovados da Escola Pública e uns 400 aprovados Negros (vide o primeiro pos);
2 – A redução do número de candidatos cotistas foi garantida pela elevação do nível de dificuldade dos nossos exames Classificatórios. A UERJ apresentava um crescimento de números de candidatos habilitados ao Discursivo de por volta de 3% ao ano (próximo ao crescimento demográfico geral e um pouco inferior ao crescimento de Vagas no Ensino Médio). Ano passado perto de 36 mil candidatos foram habilitados a se inscreverem no Discursivo, esse ano não chegamos a 30 mil. Por quê esse dado representa “elevação de dificuldade? Em “pedagogês para leigos” a Teoria de Exames Objetivos informa que em universos estáveis (o dos nossos candidatos é um desses tendo em vista a barreira – estar concluindo, cursando ou concluído o Ensino Médio – o tamanho da prova – 60 questões – e o número de inscritos – de 60 a 70 mil) as variações de resultado – em termos do número de aprovados e eliminados – é o principal indicador da “qualidade da prova”. Como desses três fatores básicos dois, com a mais absoluta certeza, não se alteraram em termos relevante (a qualidade do Ensino Médio e o universo de inscritos), a redução do número de habilitados em 16%, quando o esperável era uma elevação de 3%, sugere que o problema está no segundo fator: as 60 questões foram mais difíceis do que a média histórica de dificuldade da UERJ. Ora 6 mil candidatos a menos quando as curvas demográficas sugeriam 3 mil a mais quase que são números que falam por si. A suposição que 10 mil candidatos que se habilitariam para o Exame Discursivo se fizessem as provas com o mesmo nível de dificuldade que o dos Exames Classificatórias do ano passado é sustentada pela Teoria dos Exames.
3 – A nota mínima 20 pode ter sido difícil de se obter devido à dificuldade do Exame Discursivo, à uma Chave de correção mais rígida e à uma orientação de maior rigor para os membros da banca corretora. Mas aqui há uma diferença em relação às provas objetivas, se essa podem ser analisadas da forma que eu fiz no item 2, a Teoria dos Exames não valida qualquer inferência a partir dos resultados de Exames Discursivos. A metodologia de estatística inferêncial aplicada aos exames objetivos é validada internacionalmente, o que não é o caso dos Exames Discursivos, a respeito dos quais só se pode fazer mesmo são ilações e suposições. (Dessa forma, eu discordaria, do ponto de vista técnico, de opiniões que se concentram no papel do Exame Discursivo como origem da redução, mas, dos pontos de vista pedagógico e político, concordo com essas opiniões em especial pelo não preenchimento de 200 das 1031 vagas de Escola Pública – 1500 candidatos – e de 350 de vagas para negros – 400 aprovados entre os 750 concorrentes às 1031 vagas. Vale notar que o impacto da renda “per capta” praticamente só permite que estudantes do Ensino Noturno tenham o direito à vagas reservadas – ou seja, uma população menos qualificada do que os diurnos, que por sua vez tem que ser bastante pobres – e que há uma relação candidato/vaga reservada para diversas carreiras bem acima de 1 – Medicina 4,53 para EP e 3,16 para negros e Direito 2,14 e 1,96 respectivamente, por exemplo.
4 – Mas de qualquer forma o Exame Discursivo parece realmente ter sido mais difícil, tendo em vista que foram aplicados a um conjunto de candidatos com nível aparentemente superior daqueles dos anos passados. Sem os dados dos Vestibulares anteriores, para comparações longitudinais fica apenas interessante (mas não conclusivo) notar que a nota mínima superior a 50 entre os aprovados só foi obtida em 18 da 50 carreiras da UERJ. Por outro lado, em 20 carreiras a nota mínima foi inferior a 40, com a Estatística apresentado um perfil “hors concours”, pois sem nenhum cotista, a nota mínima de seus aprovados foi 20. (aqui, mais uma vez nota-se uma certa incompetência na divulgação dos resultados pelo DESEA, pois muito mais importante do que saber notas mínimas e máximas é saber a quantidade de candidatos dentro de faixas de nota).
5 – Modificando- se em seis pontos para cima a faixa de tolerância exposta no item anterior o resultado é supreendente: 16 carreiras com nota mínima superior a 56 e 31 carreiras com nota mínima inferior a 46. O DESEA, por desinteresse ou por falta de preparo técnico não revelou as Médias, as Modas e as Medianas dos aprovados. De qualquer forma, esses resultados, mesmo com os devidos descontos da elevação do Nível de Dificuldade do Vestibular, revelam que nossos “Aprovados por Mérito”, não estão tão recobertos por ele da forma que os professores da UERJ e o restante da Sociedade costuma pensar.
Do ponto de vista educacional e pedagógico, a recepção da lei de cotas pela UERJ sempre foi uma vergonha. O que se fez esse ano, se não é um crime, seguramente é uma contravenção.
Diversos fenômenos previstos e previsíveis em 2001 (vários deles eu enunciei nos primeiros debates sobre cotas) estão se confirmando. Nossos jovens são racionais. Antes de 2002 os candidatos mais fortes (negros e de escola pública) que ficariam na faixa de 55-70 pontos, se desejassem fazer Medicina, se inscreviam para Enfermagem, se desejassem fazer Direito, se inscreviam para História, se desejassem fazer Jornalismo, Letras ou Pedagogia. Hoje, com as cotas eles se inscrevem e passam para a carreira de seu desejo, antes tão distante.
Quem hegemonizou a “revolta contra as cotas” foi a sociedade que perdeu suas vagas nessas, e outras, carreiras “nobres”. As decisões do CSEPE a esse respeito foram uma resposta à esses anseios e é claro que gozaram de algum apoio interno em especial no alto escalão (só para constar, verifiquem no Clipping UERJ na Mídia, nos arquivos de 2004 onde uma das primeiras reportagens sobre as cotas – preparando a Universidade para tomar as trágicas decisões sobre Cotas no CSEPE - trazia uma pérola da nossa ex-Sub-Reitora de Graduação: a afirmava que sem as cotas os cotistas não passariam no vestibular... ).
Assim, para criar obstáculos ao ingresso de cotistas no Direito, na Medicina, na Odontologia e outras, a UERJ tomou decisões que esvaziaram as carreiras que antigamente eram utilizadas como elemento tático para ascensão social pelos que foram excluídos da “sociedade de mérito” baseada na “compra de educação”.
Nos Estados Unidos, na década de 70, o primeiro efeito das cotas foi uma inversão do perfil étnico e de gênero no corpo docente. Em 10 anos passou-se de menos de 30% de professores negros e mulheres para mais de 70%. Claro que a situação lá era bem diferente do que cá. Os estudantes negros e de escola pública (meninos e meninas) já entravam em quantidade razoável para as carreiras de pedagogia, física, matemática, biologia (e outras licenciaturas), serviço social, letras etc. Esses hoje entram em Medicina, Odontologia, Direito, Desenho Industrial. Diversas das vagas que eles ocupavam estão sendo ocupadas (ou deixadas ociosas) por um estudante de vagas não reservada que antes não passava no vestibular.
Assim chegamos a uma situação contraditória: uma lei com objetivos de inclusão social, está elevando a exclusão. Aos poucos vamos perceber que as nossas medidas anti-cotas vão possuir um impacto extremamente negativo no rendimento dos estudantes dessas carreiras. Os supostos melhores não conseguiram suas vagas nas carreiras “nobres” e estão entrando “piores” (ou desinteressados na profissão) nas diversas carreiras “socialmente menos valorizadas”.
Assim, não deixa de ser engraçado o fato de nossa UERJ, quando resolve errar, o fazer com todas as suas forças.
Henrique Garcia Sobreira
professor adjunto FEBF/UERJ - coordenador do Mestrado em Educação, cultura e comunicação
leia mais sobre o tema no clipping da UERJ
2 comentários:
Eu não deixei claro no texto acima que essas nota mínimas se referem apenas às dos candidatos de vagas não reservadas.
Utilizando-se uma nova faixa de avaliação repara-se que apenas em 7 das carreiras a nota mínima do estudante que entrou por vagas não reservadas foi superior a 65 (sendo que em duas dessas a nota foi 65,25) e em 46 das carreiras a nota mínima do candidato de vagas não reservada foi abaixo de 60. Apenas em Direito, Jornalismo e Medicina encontramos notas mínimas acima de 70. Vou insistir nesse números pois a maioria dos professores da UERJ, e mesmo o conjunto da sociedade, acredita piamente que os resultados da UERJ pioraram com as cotas. No entanto, pode-se perceber que o número de não cotistas aprovados com um rendimento acadêmico baixo (55-60%) pode ser bem maior do que se imagina.
O problema de rendimento acadêmico na UERJ, portanto, tem uma correlação com o vestibular muito menor do que se iamgina.
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